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Vislumbre

Célia tinha acabado de passar por uma decepção amorosa. Mauro simplesmente sumiu de sua vida, sem dizer nada. Apenas deixou de aparecer. Foi quando Fernando surgiu.

Ela se lembra da primeira vez que o viu, em seu carro prateado, tal qual um herói futurista em alguma missão interplanetária. Fernando era o mais charmoso de todos os homens que ela já conhecera, disso ela tinha certeza. Da janela de seu apartamento no segundo andar de um prédio residencial antigo na Rua Oscar Freire, quase na esquina com a Av. Rebouças, ela sempre o via chegar. Invariavelmente no mesmo horário, por volta das 18h30, logo depois de sair do trabalho. Ela gostava do jeito que Fernando se vestia, a camisa aberta um botão a mais do que o normal, mostrando um tórax bem torneado pelo qual ela se sentia incrivelmente atraída. Nos dias mais frios ele vestia uma jaqueta com aparência antiga, um tanto puída, mas que deve ser a preferida dele. Era a deixa para ela descer até a rua e abrir o portão de seu prédio.

Ela se considerava uma garota com muita sorte. Afinal ele enfrentava o trânsito da região todo dia para vê-la. E seu carro sempre o mais chamativo. Célia não era uma garota do tipo que se importa com isso, mas ela sabia que o carro dele não era para qualquer um. Era um importado, uma BMW ou uma Mercedes, ela não saberia dizer, mas definitivamente era muito caro.

Com o tempo Célia também começou a aprender sobre o gosto musical de Fernando. Ele andava com a janela aberta (que coragem tinha ele, ainda mais em uma cidade como essa) e o som em um volume mais alto do que o necessário para alguém que está no trânsito. Mas ela não ligava para esse detalhe, principalmente porque a música soava extremamente agradável para ela. Fernando gostava de música eletrônica, era sempre música eletrônica que tocava em seu carro, mas nada muito barulhento, nada repetitivo. Era harmônico e melodioso. E toda vez que ele olhava para ela parecia que a música tomava conta de tudo, e não havia mais nada além de Célia, Fernando e a música.

O único ponto que incomodava em Fernando, e Célia sempre tomava cuidado para não chamar de defeito, era o fato de que ele fumava. Ela não gosta de fumaça. Talvez em parte por sua janela tão próxima da rua ser invadida toda hora por nuvens negras de monóxido de carbono. O pior era quando alguns caminhões passavam cuspindo aquela fumaça preta para dentro de seu quarto.

Mas diante de tantas qualidades, o fato de Fernando fumar a incomodar parecia algo tão mesqunho e egoista que com o passar do tempo ela se esqueceu desse detalhe. Ela sempre agradecia pelo dia em que pôs os olhos no seu amado. Célia agradecia também por ter feito dias tão bonitos. Ela não gostava quando chovia, se sentia só e abandonada.

E foi assim durante cinco meses. Até que Fernando sumiu de sua vida, sem dizer nada. Apenas deixou de aparecer, não passava mais. Foi quando ela conheceu Arthur. Ela sempre vai se lembrar de quando viu Arthur pela primeira vez, vindo em uma moto esportiva linda e reluzente.

E Célia, de sua janela no segundo andar de um antigo prédio de apartamentos na Rua Oscar Freire, para sempre vai ver o trânsito passando pela rua, sem perceber que com ele sua vida pegou carona.


Tiago do Prado Barizon
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