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Free Falling

Está em queda livre. Caindo. E faz muito tempo. Para falar a verdade, ele nem mesmo se lembra exatamente quando que começou a cair. Mas com certeza há quase duas semanas. E que tédio foram esses últimos dias. Simplesmente caindo. Nada mais acontece. Só a sensação e o suspiro do vento batendo nele.

No primeiro instante em que percebera que estava caindo entrou em pânico. Ficou na ansiedade pelo momento em que fosse ver o chão se aproximando a uma velocidade incrível e então... fim. Porém não foi o que aconteceu. O tempo passou. A princípio minutos, depois horas, dias, uma semana e agora, pelo que se lembra (não é fácil contar o tempo quando se está em queda livre e não tem nenhuma televisão por perto), duas semanas. As noites ainda o incomodam um pouco, pois não consegue ver o chão. Por mais longe que estivesse, era melhor isso do que se imaginar caindo no meio de um grande nada.

Sabe aquela história de que sua vida passa como um filme quando você se atira de um prédio? Pois é, para ele esse filme já está passando numa reprise da "Sessão da Tarde", tantas foram as vezes que ele pode se preocupar com isso.

"Se ao menos eu apagasse. Porra, por que falam que a pessoa normalmente desmaia antes de atingir o chão se eu não fico nem com um soninho...?"

E é essa sua rotina. Caindo e divagando. Filosofia barata e queda-livre. "Podia ser uma modalidade esportiva isso", ruminou com seus próprios botôes, "confabulações em queda-livre".

Os dias sucediam as noites que sucediam os dias. Vez ou outra olha para cima e vê nuvens e mais nuvens. Olhando para baixo ele consegue avistar algo que parece um rio entremeando uma grande planície. Mas que nunca, nunca se aproxima. Ele já tinha até esquecido o ridículo da situação. Riu ao lembrar-se de quando tentou usar seu celular para chamar a esposa e falar o que estava acontecendo. Atendeu uma voz mecânica avisando que o celular se encontrava fora da área de cobertura. "Realmente, eu devo estar uns 50 km ACIMA da área de cobertura..."

Essa recordação o fez pensar em sua esposa. Será que nunca mais iria vê-la? "Óbvio, ou eu vou ficar caindo aqui até morrer de tédio ou eu vou me estatelar no chão." Uma pena. Ele nunca vai ter a chance de pedir desculpas por cada vez que a desrespeitou. E não foram poucas.

Mais uma vez o filminho da vida começa a passar, mas dessa vez ele resolve prestar atenção. E relembra de cada vez que mentiu para sua esposa para poder sair com as estagiárias do escritório. Lembra do choro do filho quando chegava em casa bêbado gritando com a mulher. "Mas isso foi muito tempo atrás... parei com a bebida." E ao invés de sentir um alívio com a desculpa que arranjou, sente um terrível aperto no coração. "Bem que poderia ser um enfarto..."

Enfarto... Como ele pôde se aproveitar que seu melhor amigo estava internado no hospital, se recuperando de um enfarto, para pegar a promoção e a diretoria que seriam dele por direito? Ganhou muito dinheiro e prestígio, mas perdeu o amigo.

E tanto dinheiro lhe serviu para quê? Não tem ninguém vendendo para-quedas por essas bandas...

Lembra-se de seus pais e das brigas que sempre tiveram. Um dia antes de toda essa loucura começar recebera uma carta de seu pai, querendo saber como estava e se poderia ver o neto. Na hora nem se deu conta, mas arrepende-se amargamente de ter jogado a carta no lixo, sem ao menos comentar com o próprio filho. "Será que os dois vão se encontrar mesmo assim?" Não adianta muita coisa se preocupar com isso agora. Deveria ter sido mais compreensivo e deixar que seu pai visse o neto, por mais humilde e simples que fosse. Está envergonhado por um dia ter menosprezado seu pai e ter-lhe dito que era um péssimo exemplo para o neto.

Até com o vizinho tinha criado problemas. E só porque as folhas que caíam de uma árvore no quintal dele acabavam invariavelmente sujando seu quintal... Que infantil...

Poderia ter sido um pai mais presente. Poderia ter sido um amigo e um amante além de marido. Poderia ter sido menos orgulhoso. Poderia ter ajudado mais. Poderia ter feito com que os outros tivessem uma recordação diferente de si próprio. Poderia ter mudado sua imagem. Poderia não estar chorando agora.

E enquanto tenta enxugar o rastro que as lágrimas vão deixando em seu rosto por conta da alta velocidade, tem por alguns instantes a impressão de que o chão está finalmente se aproximando.


Tiago do Prado Barizon
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barizon@allflow.com.br




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